3 dias num casulo a trabalhar. Os headphones ligados na smooth. Águas de
cores e sabores para entreter a escrita, os olhos pequenos, doridos da luz dos
links, as pernas sem posição, a criatividade num vaivém caprichoso, ora aparece
ora vai lá fora ver se está a chover. Só chove na rua. Oiço ao longe uma
tempestade verbal, de vez em quando um raio ecoa e o protesto continua. Quero levantar-me,
sem gabardinas nem galochas, e ir assim, a cru, dar o currículo ao manifesto.
Também faço parte deste formigueiro de gente que não se contenta, cujo sangue
ferve com razão e fundamento. Lá fora, a chuva é tropical, as cabeças vêm à tona
e cospem a sua raiva. Os deuses estão na assembleia, a trikoitar a nossa cama,
a remendar-lhe os buracos abrindo fendas logo ao lado. Quero mais um filho. Não
exijo colégio inglês nem brinquedos topo de gama. Não concebo educa-lo sem
noções de solidariedade e alguma abnegação. Aceito roupas de primos, dou a
minha a filhos de amigos, construo histórias e livros, brincamos a brincadeiras
que não precisam de botões, só sonhos, ideias e nós. Quero mais um filho porque
lhe quero mostrar a kalandraka, e a oqo e os desenhos da rute reimão; quero
mais um filho para o ensinar a contar as ondas e a fintá-las; quero mais um
filho porque há pássaros azuis a viver debaixo da cama e só alguém pequenino
consegue lá chegar para os alimentar. Neste caso, querer não é (só) fazer. É
destroikar a nossa vida, ficar deitado na cama a ler os cortes e as medidas e
as taxas e os impostos. E a vontade envelhece, cansa-se e vai-se embora.
3 dias num casulo, a projetar um hotel, a varrer legislação, a planear o investimento,
a fazer contatos. Lá dentro, borboletas na barriga à espera de criar o próprio emprego. Cá
fora desaba o mundo.
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